A eutanásia do PSD

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Na questão da eutanásia, o PSD tem a oportunidade para mostrar que não tem medo da esquerda, que não tem medo dos complexos de esquerda da imprensa, que não tem medo de parecer de direita, conservador, católico, chamem-lhe o que quiserem. Tem a oportunidade de deixar de lado a sua cobardia clássica, que pode ser resumida assim: de manhã e em privado, a personalidade do PSD está à direita; mas, à tarde e em público, aparece à esquerda. Esta cobardia cria um vazio inaceitável. O PSD não pode ser o partido da tecnocracia que entrega a visão moral da sociedade à esquerda. Se o PSD já é igual ao PS na governação económica, vai reforçar essa mesmice apoiando uma das causas fraturantes — a eutanásia? Se o PSD votar a favor da eutanásia, colocando Portugal no quadro que já se vive na Bélgica e na Holanda (onde se ‘eutanaziam’ velhos com demência, onde se ‘eutanaziam’ raparigas com depressão), nunca mais voto neste partido. Estou farto da cobardia deste ser disforme que tem vergonha da sua essência. O PSD até me faz lembrar aquele indivíduo de Braga ou Porto que, nos meios lisboetas, faz tudo para esconder as suas raízes mais conservadoras, mais católicas, mais familiares. Se calhar é isso, o PSD tem vergonha do seu sotaque.

No Parlamento, os deputados do PSD têm uma oportunidade para se afirmarem, para se rebelarem contra a barragem de artilharia do BE e da imprensa, duas entidades que por vezes são indistinguíveis. Alguém falou em Portugal do “não” que a Finlândia deu à eutanásia há dias? Não, pois não. Mas já se fala da proibição da “eutanásia” para animais imposta pelo PAN, o mesmo PAN que lançou a eutanásia para pessoas. Repare-se, portanto, no país que a esquerda está a criar debaixo da complacência do PSD: diviniza-se a vida animal no exato momento em que se dessacraliza a vida humana.

Acima de tudo, os deputados do PSD têm a oportunidade de fazer o que está certo. Em primeiro lugar, têm a oportunidade de desviar a agenda para os cuidados paliativos e para a figura do cuidador. Se temos licenças quando os nossos filhos nascem, também devemos ter licenças para cuidar do ocaso dos nossos pais; o desejo de eutanásia nasce da solidão imensa dos nossos velhos. Em segundo lugar, os deputados do PSD têm a oportunidade para dizer que nenhuma sociedade sobrevive à legitimação do suicídio enquanto valor coletivo. Um Estado não mata nem permite a morte dos seus cidadãos, mesmo quando estes a desejam. Quando uma pessoa pede a morte ao Estado, o leviatã não lhe deve dar uma injeção letal, deve abraçá-la. Em terceiro lugar, o PSD tem a oportunidade de defender a ética dos médicos e enfermeiros. São eles que têm de matar. Sim, matar. Este tema tem sido colocado ao contrário. A questão não é alguém desejar morrer, é alguém ter de matar. O desejo de suicídio é universal. Há mais bilhetes de suicídio do que pessoas. A questão é que este desejo de morte não pode ser transferido para outra pessoa. O suicídio como valor coletivo é a eutanásia da própria ideia de sociedade, é a legitimação da ideia de que cada indivíduo é uma ilha isolada, é a consagração da profecia: os sinos tocam para ouvidos moucos.

Henrique Raposo