Compaixão: acabar com o sofrimento ou acompanhar na paixão?

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A Associação de Psicólogos Católicos, com o intuito de contribuir para a reflexão em curso sobre a eutanásia, elaborou um comunicado, do qual se destacam os seguintes pontos-chave:

  1. Desejo de morrer ou desejo de ser feliz, amado e aliviado na dor?

Acreditamos que no pedido de morte, há um outro grito escondido. Será que o ouvimos? O verdadeiro pedido é de felicidade, amor e companhia.

  1. Será possível a vida sem sofrimento? O sofrimento torna a vida indigna?

Muitas vezes a morte é encarada como a única solução para o fim do sofrimento … Mas na verdade, a morte apenas acaba com a vida. Não acaba com o sofrimento. Este, acabando com o ideal de viver feliz e ser amado, leva as pessoas a pensar que a vida deixou de ter valor e dignidade. Não será isso o resultado de uma visão instrumental da vida? Só é digna se tem utilidade. A morte deixa um vazio que só se preenche com a certeza da dignidade da vida.

  1. O sofrimento leva-nos ao confronto com os nossos limites e fragilidades.

Na verdade, não temos medo do sofrimento. Temos medo, sim, do confronto com a nossa fragilidade e com os nossos limites. As perguntas para as quais devemos encontrar respostas, são as perguntas sobre o sentido da vida, sobre o sentido do sofrimento, sobre a liberdade diante dos limites, sobre o valor da fragilidade, etc… A morte não traz respostas. Na verdade, optar pela eutanásia é sempre optar por uma resposta que nos iliba do confronto com a nossa própria vulnerabilidade e fragilidade, incerteza e insegurança.

  1. Acompanhar ou descartar?

Escolher a morte como fim para o sofrimento não é tanto um ato de amor, mas antes uma forma de virar o olhar, de recusar o confronto com o pedido do outro e com o nosso próprio pedido de respostas. Escolher a morte é dizer ao outro que não estou disponível para acolher a sua dor e sofrimento. Não quero acompanhar essa parte da sua vida.

  1. Uma nova perspetiva: em cada homem que sofre, é a minha humanidade que chora.

A sugestão é ajudarmo-nos mutuamente a carregar as dores uns dos outros, colocarmo-nos na pele do outro e tomar consciência de que afinal eramos nós mesmos que precisávamos de ter a experiência de amar e ser amados, para voltar a acreditar no amor. Só no contexto da vida acompanhada e amada, no contexto de uma relação, no contexto de um encontro, se encontram as respostas. A morte, aliás, é o fim da possibilidade de encontrar respostas. É o fim da possibilidade de cada um de nós se questionar sobre o seu papel na vida dos outros e sobre a forma como está disposto a acompanhar, a partilhar e a sofrer com o outro.

A proposta da Associação de Psicólogos Católicos é que nos foquemos nestes pontos, afim de melhor podermos servir os que nos procuram com o sofrimento nos braços e um pedido de ajuda e companhia no coração.

Maria José Vilaça
Presidente da Associação de Psicólogos Católicos