EUTANÁSIA E HOMICÍDIO

  • by

A mente legislativa do homem não se foca em proibir coisas que ninguém gostasse de praticar. Provavelmente não existiriam leis, se não fossem contra coisas que os homens gostariam de poder fazer.
Proibiu-se o assassínio, porque existe um elevado número de pessoas para quem ele aparenta ser muito natural e até desejável.
Proibiu-se o roubo, porque é tão óbvio que muita propriedade aparenta estar em mãos erradas e estaria melhor na nossa própria mão; qualquer tolo o sabe, qualquer tolo o pode dizer e a lei foi feita porque qualquer tolo o poderia fazer.
Há um mandamento contra o roubo, não só do jumento do próximo, mas da sua mulher; na qual seria agora interdito mergulhar, porque muitos tolos o fizeram.
No século XIX pensava-se que tais coisas só ocorreriam a uma classe de monstros chamados os criminosos.
Ora, o que os romances policiais mostram é que todos nós somos potenciais criminosos.
Agora, sempre que um homem pensa que gostaria de matar alguém, aloja a ideia na sua mente de que essa pessoa merecia estar morta.
É por isso que no meu país algumas pessoas propõem algo a que chamam eutanásia. No presente aplicar-se ia apenas àqueles que se consideram um fardo para si próprios; mas rapidamente será aplicada àqueles que forem um fardo para outrem. Como se aplicará a muitos moribundos ou pessoas com paralisias, provavelmente a decisão assentará sobre o arbítrio de outros.
Compreenderemos como é que uma excepção progressivamente substitui a regra, se entendermos que aquilo que muitas vezes nos apetece são precisamente coisas que nos devemos coibir de fazer. É pelo facto de todos sermos criminosos que o crime nos deve ser interdito.

Chesterton, The American Review, 1937

Chesterton Portugal 14.05.2018