Nunca gritem ‘Viva la Muerte!’

O PCP surpreendeu-me positivamente no caso da eutanásia. Tal como os comunistas (a quem um mito acusava de matarem velhos com uma injeção atrás da orelha) também eu acho que uma lei para se morrer a pedido pode ser um retrocesso civilizacional.

Sobre esta questão tão delicada não se pode ser claro, menos ainda pedir referendos. Penso que há formas de vida que não valem a pena. Penso que há alturas para o golpe de misericórdia que o oficial sempre deu no soldado condenado ao sofrimento e sem esperança. Mas tal como o tiro do oficial não está regulado por nenhuma lei, a sobrevivência deve ser deixada a quem pode aferir — a classe médica. Poderá haver médicos mais abertos do que outros, mas em todos os aspetos da vida isso acontece. O que me interessa não é tanto o caso de fulano ou sicrano, mas as portas que se abrem com a eutanásia. Ao aceitarmos o que erradamente alguns consideram ‘despenalização’ (não há nada na lei sobre isso, pelo que seria uma legalização da morte a pedido), fechamos todas as outras portas possíveis. Se eu sou dono do meu corpo e do meu destino, porque não posso cortar um braço? Ou vazar um olho? Se ele me incomodar e o médico não tiver solução, deve imperar o meu desejo? O meu corpo é só meu? Não tenho deveres em relação a mais ninguém? Por que motivo se entristecem aqueles que veem um pai ou uma mãe partir quando estes já passaram os 90 anos? Se derem a escolher à grande maioria, ninguém quer perder um pai ou uma mãe por muito balhelhas que esteja. Esta é a verdade e, ainda que digam que levo a discussão para o plano emocional, é também neste plano que as coisas devem ser discutidas.

Os que dizem que não querem um fim degradante dizem-no antes de o ter. O que é um fim degradante? É nos outros que o vemos? E pensam eles que é degradante?

Se a venda de drogas para abreviar a morte se sobrepuser à das drogas para a combater, temos um efeito perverso. Se as heranças e litígios familiares tiverem a porta da eutanásia entreaberta, temos um caso sério

Os médicos abreviam vidas quando não têm outra hipótese. São contra o encarniçamento terapêutico. Porém, no geral, lutam pela sobrevivência dos seus pacientes. Se a venda de drogas para abreviar a morte se sobrepuser à das drogas para a combater, temos um efeito perverso. Se as heranças e litígios familiares tiverem a porta da eutanásia entreaberta, temos um caso sério. O meu não sei é dizer que não se grita “viva la muerte!” como faziam os fascistas espanhóis.

Posto isto não pretendo o sofrimento inútil de ninguém. Penso, apenas, que quem quer fazer o que acha que deve ser feito não necessita de uma lei que diga a um médico ou a um soldado o que pode fazer. A lei da consciência é, em muitos casos, melhor do que a lei dos homens. Não tem de generalizar; há casos e casos.

Henrique Monteiro